LEITURAS

Épico de Gilgamés

      Comecemos pela epopeia de Gilgamés. Se há história onde pela primeira vez se regista para a posteridade a luta do ser humano contra o seu destino, é em Gilgamés. Se a obra apenas indicia as maravilhas esplendorosas que lhe estarão por detrás, na base e nos alicerces, não deixa de nos abrir, como num leque, como numa plantinha que desponta os gomos ao sol, os ramos frutuosos do que se seguiu, desde Homero, passando por Vergílio e Dante, até aos nossos dias, que não são mais que mera etapa neste percurso infinito por onde se passeia a literatura. É poderosa a história de amizade do rei lendário com Enkidu, comovente o medo de ambos perante as forças invencíveis que regem a vida, confrangedora a luta do herói contra a fatalidade da morte. O rei possante e valente, alto, robusto e corpulento, dominador sobre os homens, não tem vergonha de chorar de impotência diante do rosto impassível do destino.


Ilíada

     A história de Heitor e de Aquiles, diria eu. Confesso que Heitor me atrai mais do que Aquiles. Aquiles é demasiado irascível, é um irresponsável. Não que eu desconsidere a irresponsabilidade, porque muitas vezes é mais benéfica do que a responsabilidade canónica, mas Aquiles nem sequer reflete nos que o seguem, nos que acreditam nele. É excessivamente animalesco. Heitor não. Heitor é um ser humano em todos os sentidos. Acima de tudo, ama. Ama a sua terra, ama a sua esposa, o filho, os pais, a vida, a honra. Tanto que prefere morrer a perdê-los a todos. Absurdo? Não. É ser humano.

Os Doze Césares

     História? Romance? Suetónio dá-nos, acima de tudo, o prazer da leitura. É delicioso percorrer as linhas deste livro memorável. Escândalo, amor, traição, fidelidade, abnegação, loucura, delírio, crueldade, drama, paixão, intriga, tudo cabe nesta obra onde percorremos as vidas dos primeiros imperadores romanos como se vivêssemos na Roma antiga e as personagens estivessem ainda a preparar as suas próximas ações.

A Guerra das Gálias

      Não devo ter lido tantas vezes um livro como este. É fascinante! Não me refiro somente à famosa expressão de Cícero: "De uma concisão luminosa e pura", não, «A guerra das Gálias» é muito mais do que isso. Além de ser um dos grandes documentos históricos da humanidade, onde podemos encontrar informação sobre os povos celtas e germânicos, ou sobre as famigeradas intrigas políticas de Roma, os comentários de César revelam um comunicador nato, um escritor na verdadeira aceção do termo. É simplesmente delicioso, é como água correndo doce e calma de uma nascente. Se o autor não tem pejo em descrever a crueldade humana, a ambição pessoal ou a subserviência interesseira, também não se abstém de comunicar da forma mais simples que é possível.

      É um verdadeiro monumento literário!

Satyricon

      A liberdade artística elevada ao cinismo mais perfeito da arte. Não, não esperem um escritor preso a convenções doutrinais, a regras ou a correntes literárias. Petrónio é um vadio em todos os sentidos do termo, é um desbragado, um libertino, um filósofo que filosofa ao mesmo tempo que vive, um nietzschiano antes de Nietzsche, um decadente que se eleva acima do pedantismo, uma lufada de ar fresco no meio de uma orgia, é a verdade de uma pústula num rosto esbelto, é Petrónio, um homem livre antes de tudo. Teve a desfaçatez de se suicidar por prazer, para insultar um imperador idiota que estava muito abaixo dele. Era tão dissoluto que chegou ao ponto de escandalizar Séneca, um homem que amava a liberdade acima da vida.

      Disto, e de muito mais, é feito o Satyricon. Leiam.

Livro de Kells

      Não se trata, neste caso, do conteúdo do texto, porque não passa de uma cópia dos Evangelhos, trata-se sim do ato de amor de se apresentar uma escritura que nos é cara e é sagrada como forma de arte elevada aos píncaros da beleza e da perfeição. Não se sabe quem escreveu o livro de Kells, ou melhor, quem o desenhou, porque o divino artista não deixou praticamente um bocado de página que não esteja iluminada (e esta palavra nunca serviu tão bem a nenhum códice como no caso deste livro fabuloso). As pinturas sucedem-se, entrecruzam-se, enquadram-se, sem jamais deixarem de ser absolutamente harmoniosas. Há até quem duvide de ter sido um ser humano, um simples mortal, a elaborar tão maravilhosa obra prima, pois não há um único erro, um único desvio, em toda a complexa teia de voltas, cruzamentos e enredados dos motivos tipicamente celtas. Talvez a mão firme tivesse sido guiada pela paciência infinita de Deus e pelo amor eterno de Jesus, talvez tenha sido um anjo.

Elogio da Loucura

      O nome já é delicioso, porque sendo um aparente contrassenso obriga-nos imediatamente a refletir: como se pode elogiar o que é mau? É isto que faz de um livro algo duradouro: espeta a ponta acerba onde mais dói. Se dói, é preciso ir lá ver porque é que dói.

      Erasmo fala de tudo, da religião à literatura, sem deixar de ridicularizar certos aspetos da vida que nós consideramos tão triviais que nem mereceriam que um sábio (e logo um dos maiores de todos os tempos) perdesse tempo a discorrer sobre eles. Mas Erasmo perdeu esse tempo, o que nos fez ganhar uma obra deliciosa a todos os níveis. Como poderia o mundo voltar a ser como antes se o autor provou de uma forma simples a sua completa loucura?

O Idiota

      Não serei eu idiota, nesta selva humana? Não serei eu iluminado, neste mundo idiota?

     O romance de Dostoiévsqui acompanha a vida de um pobre homem que se diz príncipe, um inocente, um singelo ser humano que não deseja mal a ninguém, mas sobre quem desaba a maldade. Tem o atrevimento de se julgar feliz, tem o atrevimento de interferir nas manigâncias daqueles que se lhe tornam próximos, tem a audácia de querer mudar o mundo sem o perceber. É um idiota. É tão estranho à vida que a vida o desampara; a vida é-lhe tão estranha que  ele próprio desampara a vida.

     O pobre idiota não sabe como agir, não sabe se há de cuspir na cara do mundo, se há de vergar-se de acatamento diante dele.

A Luz em Agosto

      Um romance admirável!

    William Faulkner (um dos prémios Nobel mais merecidos) retrata uma personagem que foge às suas próprias origens por causa das convenções humanas. A crueldade daquela civilização à qual nos orgulhamos de pertencer está patente neste livro como se pode ler em poucos. Nietzsche, o maior filósofo desde Aristóteles, tinha razão, e iria adorar ler «A luz em agosto»: o ser humano preso à sociedade é tão fraco que só suscita desprezo.

      Um branco que suspeita ter antepassados negros não é branco nem negro, não é nada. Foge dos brancos que lhe chama preto, foge dos negros que lhe chamam branco, foge de si, foge do mundo, para cair fatalmente numa realidade insuportável.





(Outros virão.)